Wednesday, June 27, 2007

Epidemia Polimeroidal

Muito antes do Homem inventar (ou descobrir) a roda já as "donas de casa" das cavernas necessitavam de uma despensa onde armazenar utensílios práticos e comida para o caso de dar a tão famosa Dor_No_Cu* aos machos da casa e estes não poderem caçar durante uns tempos. (*Dor_No_Cu: mais vulgarmente conhecida como Uma_Dor_No_Cu, é a justificação mais globalmente aceite para que uma mulher [ou, para não sermos machistas que afinal de contas sou mulher, o homem, caso seja este a "governar" os dinheiros da casa] ponha de lado uma parte considerável dos rendimentos mensais do agregado familiar em que ninguém supostamente pode tocar. Este "pé de meia" acaba, normalmente, por ser gasto em algo que nada tem a ver com dor, ou com cu, ou com dores no cu.)

Mas deixemo-nos de divagações. Onde ia eu? Ah, pois, a despensa. Que mania essa a de termos de ter tudo organizadinho e empacotadinho, no seu devido lugar. Bem, a mente humana é mesmo assim, e a mania do empacotamento e arrumação, felizmente, tem graus, como boa mania que é. De facto, há de tudo. Há aqueles que não podem ter um palito fora de uma caixa, há os assim-assim, e há os que têm uma única saca plástica no frigorífico, mais legumes, e fruta, e carne, e ovos, e leite, e iogurtes, e abre-se o frigorífico e só se vê uma grande saca quase a arrebentar... bem, manias não se discutem, nem a falta excessiva delas. Mas esta mania do empacotamento tem-se vindo a intensificar nos tempos modernos e neste momento é já tão abrangente e complexa que os especialistas tiveram necessidade de ramificar a coisa. Uma dessas ramificações, e, no meu ponto de vista, a mais perigosa, é aquela a que eu chamo a Mania_do_Encaixotamento. Pois bem, sem que nos déssemos conta, foi criada uma epidemia terrível que tem vindo a invadir as nossas casas e já se tornou numa das mais dissimuladas e persistentes pragas do século XXI: A_Caixa. Quem pode dizer que não tem algures, por mais pequeno que seja, um exemplar d'A_Caixa lá nos armários da cozinha? Mas atenção, não há problema em termos alguns exemplares! De facto eles até que fazem jeito, fica tudo muito mais arrumado e organizado e consegue-se poupar imenso espaço quando a sua utilização é a correcta. O problema é que A_Caixa parece ter vida própria e um sistema reprodutor pior que o dos coelhos. É uma espécie de "Gremling de polímero". São muito jeitosas, muito bonitas, encaixam umas nas outras, mas mais cedo ou mais tarde quebramos alguma das regras e elas tornam-se verdadeiros monstrinhos que invadem os nossos armários e frigoríficos e se multiplicam a velocidade exponencial, para já não falar que parecem crescer de tamanho e a propriedade de encaixarem umas nas outras desaparece como que por magia, bem como o encaixe das respectivas tampas de fecho. Vou então agora descrever um cenário típico do ciclo de vida de um exemplar d'A_Caixa, e depois verão se concordam ou não comigo.


A família X tem um futuro pai e uma futura mãe, um cachorro e um periquito raquítico. Decidem comprar uma casa para iniciar a sua vida familiar com o novo elemento que aí há-de vir. Compram a casa, compram mobília e equipam a cozinha. Vamos então ver a cozinha em pormenor pois é este o ecossistema d'A_Caixa. Escolhem electrodomésticos, louça, trem de cozinha e, como é natural, um conjunto ou dois de exemplares d'A_Caixa, em vários tamanhos e cores, com várias funcionalidades, mas padronizadas de forma a tornar a arrumação mais eficaz, encaixando-se umas em cima das outras e coisas do género. No início tudo é bom. A família X vai, pela primeira vez desde que moram na sua nova casa, às compras. Enchem a despensa e frigorífico e, como também é natural, utilizam as suas novas aquisições para arrumação. Ficam contentes, gastaram muitos exemplares d'A_Caixa a arrumar mas ainda lhes sobraram alguns para o caso de ser necessário. Significa que compraram o número ideal de exemplares. Dão, então, uma festa e convidam uns amigos, para comemorar a compra da casa e o início da sua vida familiar. Como são pessoas modernas, sugerem um sistema de multas para a festa, em que cada convidado trás determinado item necessário, maioritariamente comestíveis. É então que A_Caixa entra em acção. TODA a gente trás o que lhe coube a si trazer dentro de um exemplar d'A_Caixa, mas não é num exemplar qualquer... não, é num exemplar que já se encontra numa fase do ciclo de vida d'A_Caixa bem diferente da fase em que se encontram os exemplares tão fresquinhos adquiridos recentemente pela família X. Não vou agora descrever a fase da sua vida em que esse exemplar se encontra pois estaria a revelar uma parte posterior desta história e estragaria o enredo, de maneira que opto antes por omitir tal informação e apenas dizer que quem trouxe um desses exemplares d'A_Caixa está a ter o comportamento esperado tendo em conta a fase da vida em que esse exemplar se encontra. Continuemos então. A festa. Muita animação, muita comida e bebida, muita música e... muitos exemplares d'A_Caixa espalhados pela cozinha. Final da festa. Começam a sair os convidados, um a um, e nem um deles fez tenção de mencionar o facto de o seu exemplar se encontrar na cozinha dos amigos, vazio, à espera de ser levado para casa. Em vez disso opta pelo silêncio, esperando que os anfitriões não notem que este silêncio é dissimulado, que tem muito mais que se lhe diga. E os donos da casa, como seres inexperientes que são, nada dizem, nem se lembram! Ou então até se lembram e, ao fechar a porta dizem inocentemente: "Amanhã entrego-te A_Caixa, vou lavá-la e assim vai direitinha e limpa, ok? É que aquilo ali dentro está uma confusão...". Esta é a pior coisa que um convidado que está prestes a deixar um dos seus exemplares em casa dos amigos pode ouvir, pois até aí tinha mantida viva a vaga esperança de que este exemplar nunca mais voltasse a fazer parte do seu próprio ciclo de exemplares de A_Caixa.

Passados uns tempos o casal começa a fazer asneiras. Como não conhecem as rígidas regras de "Como bem manusear A_Caixa, mantendo-lhe as rédeas curtas" (devia haver mais divulgação nesta área, mas não convém pois não? Quer dizer, a meia dúzia de estudantes que acabam a licenciatura em Engenharia do Polímero por ano também merecem o seu lugar ao sol... não vamos agora ser mauzinhos) acabam por desgraçar a sua cozinha e, consequentemente, a harmonia na casa e ambiente familiar. A_Caixa começa, silenciosamente, a estender os seus tentáculos e, em última instância, surgem discussões no seio familiar provocadas por esta maldita epidemia.

O filho, já com alguma idade, certo dia abre a porta do armário à procura d'A_Caixa das bolachas, mas esta, oh, está vazia! Vai a chorar para a mãe. A mãe enche-a novamente, consola o filho e pergunta a si própria porque não esteve mais atenta e não reparou que A_Caixa estava já a ficar vazia. Entretanto chega o pai. Abre o frigorífico e tira A_Caixa do fiambre e a do queijo para fazer uma sande (recuso-me a escrever "sandes"), como é habitual, mas descobre que esta última está vazia. Fúria!
H: "Ainda no fim-de-semana comprei queijo e já não há? Eu não como assim tanto! Devemos ter ratos em casa, não?"
M: "Ora vê bem naquela outr'A_Caixa, a azul, se não tens lá queijo..."
H: "Raisparta, mulher, que mania a tua de mudar tudo de sítio! Tinhas de tirar o queijo d'A_Caixa dele? A_Caixa fez-te algum mal?"
M: "Ouve lá meu anormal, eu não mudei nada de sítio. Compraste muito queijo anteontem e eu tive de o repartir, foi o que foi! Se pensasses um pouco perceberias isso antes de despejares asneiradas cá para fora. E já agora, eu não como queijo, o miúdo também não, e como, que eu saiba, não há ratos cá em casa, A_Caixa do queijo está VAZIA NO FRIGORÍFICO por tua causa!"
Este é um exemplo típico de discussão provocada pel'A_Caixa, mas muitos outros existem.

Começam então os problemas de encaixe. Os exemplares d'A_Caixa vão sendo usados, e lavados, e usados, e lavados, e a certa altura começam a entrar na fase da sua vida a que eu dou o nome de Desfiguração. As bordas deixam de ser circunferências, mas também não se transformam em elipses, ficam algures entre a circunferência e a roda dentada. As respectivas tampas também elas próprias chegam à sua fase de Desfiguração. No entanto, embora façam parte d'A_Caixa como um todo, são partes diferentes e, consequentemente, sofrem de forma diferente ao entrar na Desfiguração. Deixam, também elas, de serem circulares e a sua forma situa-se entre o círculo e a roda dentada. O problema é que, normalmente, a nova forma da tampa não é NADA compatível com a nova forma da sua cara metade, de maneira que ficam condenadas à separação, quase sempre definitiva, embora em raros casos se possa dar uma "mãozinha" e fazer a coisa funcionar outra vez, à bruta.

Entretanto já outro problema se começou a tornar visível: a Proliferação. Sem que se apercebessem conscientemente das consequências disso, ao longo dos tempos (não necessariamente anos, atenção, às vezes A_Caixa actua de forma muito rápida!) a família X foi adquirindo novos conjuntos de exemplares de A_Caixa, desta vez já não se preocupando tanto com a uniformização, até porque estão sempre a aparecer novos e melhores modelos no mercado, raisparta que os gajos não param de inventar coisas, mas sem NUNCA deitar um exemplar dos antigos ao lixo. De facto, alguns dos exemplares d'A_Caixa que andam lá por casa nem foram eles que compraram. Foram, antes, lá deixados por amigos ou familiares (como no caso da festinha inicial) de forma propositada, quase certamente, e por lá ficaram. Não que os donos da casa fossem mitras e se quisessem apoderar dos exemplares d'A_Caixa dos seus convidados, nada disso! Apenas acontecia... e eles não percebiam bem porquê. Ao início ainda falavam sobre o assunto, mas entretanto foram deixando passar e os exemplares rapidamente se adaptaram ao novo ecossistema. E de repente há exemplares d'A_Caixa por todo o lado! De todos os tamanhos e feitios, cores e formas, com utilidade aparente ou com aparente desproporcionalidade de tamanho que encontrar utilidade para ela se torna uma tarefa hercúlea. É então que a família X começa a tentar, repito, tentar, fazer a desparasitação, recorrendo a medidas drásticas já padronizadas e mais que testadas.

Medida Drástica Número Um:
Acabaram-se as festas em que os convidados POSSAM trazer seja o que for!
Casal: "Meus amigos, afinal de contas, somos nós que vos estamos a convidar, não precisam de trazer nada..."
Amigos: "Oh, não digam disparates! Deixem-se de coisas, somos amigos ou não? Levamos sim senhora, nem que sejam uns aperitivos, uns rissóis, uma bola de carne, ou um bolo para sobremesa."
[Reparem na subtileza deles. À medida que vão saltando de alimento para alimento que possivelmente podem levar, o tamanho d'A_Caixa que precisam para transportar tal comida vai aumentando...]
Casal: "Não, sério, não vale a pena."
Amigos: "Nós insistimos!"
[Começa a formar-se um mau ambiente... E o casal manda bocas, sempre com um sorriso, para não parecer que a questão os afecta tanto.]
Casal: "Quem manda aqui afinal? Não trazem e acabou-se a discussão!"
Amigos: "Olha-me estes! Já deram antes festas em que não se puseram com tantas tretas. Que se passa agora?"
[Em desespero de causa.]
Casal: "Pronto, tragam uma garrafa de vinho, ou um refrigerante, vá."
Amigos: "Olha, que coincidência, temos lá em casa umas laranjas e uns limões que trouxemos lá da quinta, mesmo fresquinhos, que fazem um suminho de laranja e limonada fantásticos, daqui! Então amanhã levamos um'A_Caixa delas e esprememo-las na hora, pode ser?"
[Fim da picada.]
Tentativa de aplicação da Medida Drástica Número Um - falhada.

Medida Drástica Número Dois:
Fazer aos outros aquilo que não gostamos que nos façam a nós. Neste caso específico significa levar exemplares d'A_Caixa para casa de algum conhecido, amigo ou familiar, e de preferência conseguir com que os donos da casa não se lembrem de a devolver na altura e assim a probabilidade de ela retornar à origem será menor. Convém, no entanto, fazer isto com pessoas que ainda sejam algo leigas nas consequências da má interacção com A_Caixa pois, caso contrário, o exemplar "esquecido" voltará quase certamente ao seu ecossistema inicial. Como? Ora, a mente humana consegue ser tão criativa! De repente as chaves da nossa casa desaparecem sem sabermos porquê. Dá-mos com elas num sítio onde temos a certeza de não as termos deixado horas mais tarde e, chegados a casa, abrimos um armário e, milagre!, o exemplar não desejado está lá descansado da vida! E outro ponto importante. Que exemplares é que temos de tentar "despachar" para outra casa que não a nossa? Aqueles que estiverem já numa fase MUITO avançada de Desfiguração, ou aqueles que alguém lá deixou em casa pois tomou, ela própria, a Medida Drástica Número Dois, mas que tem uma tamanho imenso e não cabe em lado nenhum, para além de ser extremamente feio. Em desespero de causa, quando a Proliferação já ultrapassou o ponto crítico, um exemplar qualquer serve, desde que a cozinha fique um pouco mais vazia no final do dia. Aliás, nesses casos, despachar um ou dois exemplares dos "bons" até pode ser uma boa ideia, afinal de contas eles estão escondidos dos olhares e estão, lá nos armários, e assim a probabilidade de o quererem "adoptar" talvez aumente.
No entanto, embora seja possível de facto erradicar alguns exemplares indesejados d'A_Caixa lá da cozinha, tendo em conta a quantidade de vezes que somos confrontados com tentativas de aplicação da Medida Drástica Número Dois por parte das pessoas que nos rodeiam, a quantidade efectiva de exemplares d'A_Caixa na nossa cozinha continua a aumentar, e em raras ocasiões estagna, mas nunca por muito tempo e sem nunca diminuir.
Tentativa de aplicação da Medida Drástica Número Dois - falhada.

Medida Drástica Número Três:
Deitar fora alguns exemplares d'A_Caixa que sejam desesperadamente indesejados. Mas aqui entra um outro factor: a quase incapacidade do ser humano para se livrar de objectos que possam, eventualmente, ter utilidade, um dia, talvez num dia longínquo, mas um dia, à qual eu chamo de Síndrome da Incapacidade_Do_Ser_Humano_De_Se_Livrar_De_Coisas_Que_Não_Têm_Utilidade_E_Por_Isso_Se_Convence_Que_Hão-de_Ter. É então que dizemos, perante a perspectiva de por em prática a Medida Drástica Número Três: "Ora, para isso dou!". E aí comete-se o erro de reencaminhar a Medida Drástica Número Três para a Medida Drástica Número Dois, mesmo sabendo que esta fracassa na sua essência, numa tentativa de nos iludirmos a nós próprios que tanto conseguimos não desperdiçar coisas que poderiam dar jeito a alguém (e logo a nós também, porque não?... ai, já estou a sofrer do Síndrome da Incapacidade_Do_Ser_Humano_De_Se_Livrar_De_Coisas_Que_Não_Têm_Utilidade_E_Por_Isso_Se_Convence_Que_Hão-de_Ter) e ao mesmo tempo resolvermos o problema da nossa cozinha, que começa a definhar de dia para dia. E isso ao que leva?
Tentativa de aplicação da Medida Drástica Número Três - falhada.


Bem, e a nossa história da família X para por aqui, pois a partir deste momento o ciclo de vida d'A_Caixa fica estacionado. Chegando a este ponto, atingiu-se o ponto sem retorno. Por isso cuidado! E que este post sirva de apelo e aviso para todas essas pessoas que pensam iniciar uma vida caseira. Estejam atentos! Tentem impor regras e rédeas curtas aos vossos exemplares d'A_Caixa antes que eles se imponham perante vós e controlem todos os recantos da vossa cozinha e comecem a interferir na vossa vida!

Um conselho de alguém que há bem pouco tempo tomou consciência de que os seus exemplares d'A_Caixa estão algo mal comportados, mas que, felizmente, ainda não entraram na fase sem retorno.

Thursday, June 21, 2007

Profissões

Durante parte da minha vida tive sérias dificuldades em responder concreta e objectivamente aos tão malfadados inquéritos que nos punham constantemente à frente ao longo da nossa vida estudantil até ao 12º ano, onde temos de responder a uma série de perguntas, de entre as quais o nosso nome, morada, nome dos encarregados de educação e... para mal dos meus pecados, vejam só, a profissão dos mesmos! O espertinho que se lembrou de lá colocar essa pergunta só podia estar a ter uma grande diarreia mental quando se lembrou de tão complicada e rasteirinha questão. Que tormento! Se calhar, para a maioria dos estudantes, esta era uma pergunta tão banal como: "como te chamas?". Para mim, no entanto, era motivo de dissertações prévias, em casa, e de suores frios, em frente ao papel. A linha que colocavam, já por si supostamente grande demais para o comum dos mortais, em frente a "profissão dos pais" era, para mim, uma coisa muito limitada. Em boa verdade, gastava menos tinta de caneta a escrever as composições que nos pediam no final dos testes de português do que a responder a tão tenebrosa pergunta! Causa: profissão algo indefinida do meu pai, desde sempre, profissão algo indefinida da minha mãe, a partir de certa data.

Dizem os cientistas que o comportamento do Universo e de tudo o que dele faz parte é determinista mas, ao mesmo tempo, indeterminável aos nossos olhos. O que significa isto? Que qualquer coisa no Universo tem o seu comportamento, tanto no passado e presente como no futuro, bem determinado. Tudo está já bem definido e se nos conseguíssemos "transportar" para fora deste sistema que é o nosso Universo e do qual fazemos parte, conseguiríamos ter acesso a tal "percurso inteiramente definido". A isto se chama "comportamento determinista". No entanto, como fazemos parte do todo, e em conjunto com as nossas limitações biológicas acredito, não conseguimos determinar, por exemplo, o comportamento real de uma micro-partícula ao longo do tempo. A isto se chama "indeterminabilidade do comportamento", embora este já esteja bem definido em termos físicos, mas os nossos sentidos e biologia não nos deixam captar, instantaneamente, todos os factores que nos levariam a conseguir prever com exactidão, o comportamento dessa micro-partícula no futuro, mesmo no muito próximo.

Bem, isto tudo para dizer o quê? A profissão do meu pai, e da minha mãe também mais recentemente, são exemplos que vêm dar razão a tais ideias que tentei expôr no texto acima. Ambas estão bem definidas. São, de facto, deterministas e, no entanto, eu não as consigo determinar! Isto porque não consigo, num dado instante, compreender e determinar com exactidão tudo o que eles fazem de forma exacta e objectiva, por forma a saber responder com clareza à pergunta: "o que fazem os teus pais, exactamente?". Lixado crescer com estas dúvidas, não é?

Dou por mim, agora, a ter o mesmo problema em relação à minha pessoa. Realmente, como já dizia o outro (longa história a desta expressão "como dizia o outro", que até há bem pouco tempo pensava não ter grande significado "lendárico-histórico" por trás), "quem sai aos seus não é de Genebra".

Retomando a Linha

Bem, há quanto tempo já não escrevo aqui o que quer que seja? Sei lá! Muito. Para responder a esta pergunta bastaria ir consultar a data do meu último post, mas não me apetece... Tenho uma vaga ideia de ter sido algures no mês de fevereiro. Onde isso já vai! A verdade é que, embora me lembre algumas vezes do meu blog e tenha até vontade de escrever alguma coisa nele, o tempo vai passando, a minha vida vai-se desenrolando e a preguiça de escrever aumenta proporcionalmente à quantidade de informação que gostaria de colocar aqui um dia. No entanto, outro dia dei por mim a pensar. Tenho, de facto, duas hipóteses. Ou deixo o tempo passar e eventualmente esqueço-me de que tenho um blog e/ou deixo de ter qualquer vontade de o actualizar, ou retomo a escrita e ponho o meu "diário" em ordem. Acho que vou dar uma nova oportunidade à minha capacidade de escrita (que não é muito grande, mas bem maior que há uns tempos atrás, de facto, acho que o importante é começar...) e actualizar o meu blog. Acho que é uma boa coisa a fazer. Ajuda-me a organizar ideias e a olhar para a minha vida sobre outra perspectiva. Então agora só me falta começar! Ou melhor, recomeçar. Aqui vamos nós...

Friday, February 16, 2007

O Jogo da Interacção Humana

Existe em cada um de nós, por mais que custe a alguns admitir, uma certa "dependência" de contacto humano. Embora existam seres que se isolam voluntariamente com vista numa evolução mais profunda a nível espiritual ou consciencial, ou por razões menos positivas, o certo é que essa não é uma atitude naturalmente humana. Nascemos rodeados de pessoas, às quais chamamos de família, e cedo somos "atirados" para esse jogo complexo e por vezes competitivo que é toda a Interacção Humana. Cada um de nós representa uma peça nesse jogo. E como jogo que é tem os seus objectivos, as suas regras e os respectivos prémios. No entanto não existe verdadeiramente a noção de ganhador único ou de perdedor. De facto, é sempre possível retomar-se o jogo, mesmo que nos pareça termos sido eliminados e que todo esse tabuleiro que é a vida pareça ter-se desmoronado aos nossos pés. O tabuleiro continua lá, na mesma posição e sempre disposto a ser um pouco mais ampliado e com novos e múltiplos caminhos à nossa disposição, nós é que alteramos a forma como o vemos. Desde cedo ganhamos a capacidade de reconhecer a diferença entre estar-se, ou não, acompanhado. As crianças devoram a atenção dos pais ou restante família por sentirem, até mesmo fisicamente, o quão gratificante é ter alguém verdadeiramente ali, a dar-nos atenção, a ouvir-nos, a entrar no nosso mundo. À luz do célebre livro "A Profecia Celestina" (o qual aconselho vivamente para quem tenha a mente e espírito abertos a novas, ou não assim tão novas, ideias de ver o mundo e a vida) esta necessidade deriva do facto de, ao estarmos a ser alvo de atenção por parte de outra, essa pessoa transmite-nos energia que faz com que nos sintamos melhor e com que queiramos sempre mais. E desde cedo também criamos os nossos mecanismos para captar essa tão cobiçada energia, de forma inconsciente, ao qual o livro dá o nome de "cenas de controlo". O importante a reter: desde muito pequenos que nos tornamos de certa forma "dependentes" desse contacto, muitas vezes não necessariamente físico, com quem nos rodeia.

Vários tipos de relacionamento vão surgindo ao longo das nossas vidas. Relacionamentos familiares, de amizade, companheirismo, românticos, etc.. Muitos de nós travam lutas constantes para agradar e não deixar alguns elos quebrar. Outros, por alguma razão, não cuidam o suficiente dos seus elos e estes acabam por enfraquecer. A maior parte de nós, em algum momento da vida, reflecte sobre o estado de cada elo que possui nesse momento, e, muitas vezes até, sobre a "vida" de outros elos já quebrados ou que queria vir a ter. E muitos chegam à conclusão que podiam ter feito mais e melhor, mesmo aqueles que tentam agradar e não deixar os elos quebrar. E tudo isso tem uma razão fortemente centrada no estado íntegro de um único elo, diferente de todos os outros quer no seu gosto, valor ou importância nas nossas vidas. Poucos têm consciência desse elo e ainda menos são aqueles que o cuidam devidamente. É um elo frágil, que desde cedo costuma ser atirado para um canto poeirento da casa onde vivem as nossas relações. Quando cada um de nós o reencontra, lhe reconhece o valor e potencial e começa a cuidar devidamente dele toda a nossa vida se altera e passamos a ver o mundo por um espectro diferente, mais brilhante, mais confiante e todos os elos importantes na nossa "casinha" se tornam fortes e seguros, pelo menos do nosso lado da rua, tirando-nos esses sentimentos de culpa excessivos, essas inseguranças de tamanho XXL que não dão lugar para muito mais do que nos deixar emocionalmente fracos e corroer um pouco mais esse tão frágil e especial elo discriminado. Esse elo é a ligação de nós com nós próprios, a nossa relação com o "eu" interior, a rede de comunicação connosco que quanto mais forte e segura se torna mais fácil e coerentemente nos deixa conhecer a nosso própria verdade e nos abre portas para vivermos com integridade, em ressonância com a nossa verdade interior, com um maior respeito pela vida, pelas pessoas que nos rodeiam, pelas pessoas que não nos rodeiam, pelas restantes formas de vida, pela Natureza... mas principalmente com um maior respeito por nós mesmos, por aquilo que somos, sentimos e acreditamos. Ao alimentarmos esse elo especial, tornando-o mais forte, estamos a criar defesas em nós contra a dor, mágoa, incertezas e sentimentos derrotistas e negativistas que tão facilmente por vezes deixamos que penetrem em nós e nos corroam. A estratégia principal do jogo passa então a ser diferente, deixando de focar a necessidade de conseguirmos construir e manter um grande número de elos saudáveis ou um pequeno número mas bastante fortes. Passa a ser mais benéfico para nós dar-mos especial atenção a um elo em particular, de forma saudável, coerente e sensata, cujas consequências incluem o fortalecimento e enriquecimento no que diz respeito aos restantes elos. Deixamos assim de travar uma batalha com o nosso interior e mira no exterior para passarmos a uma acção de pacificação com o nosso "eu".

Conclusão: os relacionamentos humanos são de extrema importância nas nossas vidas, mas só lhes vamos conseguir dar verdadeiro valor e absorver deles algo de realmente bom quando estivermos conectados por dentro. Amarmo-nos, compreender-nos e respeitar-nos torna-se então a via para o melhor dos prémios: A Felicidade.

Cheirinho a fresco

Está quase tudo pronto. Nem acredito que foi há tão pouco tempo que a minha avó e eu, sempre acompanhadas pelo meu avô, andamos de classificados numa mão e telemóvel na outra à procura de um espaço barato mas em bom estado, no centro da cidade, para arrendar. Este ritual já era bem conhecido da minha avó, que sempre teve um dom no que toca a arranjar boas oportunidades na área da imobiliária. Por outro lado eu também já não era uma leiga no assunto, quer dizer, pelo menos ja tinha alguma experiência pois meses atrás tinha andado, durante três semanas, à procura de casa. Nessa altura vi uma quantidade razoável de apartamentos, gastei balúrdios em chamadas telefónicas, corri a cidade de alto a baixo, conheci uma dúzia de agências imobiliárias... Quando entrei a primeira vez naquela que é agora a minha casa decidi quase de imediato. Era esta, tinha a certeza. E agora, passado quase meio ano, não me arrependo da escolha, com todos os defeitos que a casa possa ter. Mas, como eu estava a dizer, nem acredito que foi há tão pouco tempo que assinei contrato para arrendar o espaço ao qual dei o nome de Mandala de Lys. Tudo foi feito em tempo record. Quem diria que em apenas um mês tudo estivesse pronto? Bem, na verdade ainda falta uma ou outra coisa, mas nada que demore agora mais de 2 ou 3 dias a resolver, até menos se calhar. Entro na Mandala e dou por mim muitas vezes a admirar todo o trabalho que eu e os meus avós tivemos. Ao fim de um mês criamos um espaço amplo, simples, mas acolhedor, onde se respira Paz. E depois de muitas pinceladas e semanas inteiras de trabalho, o meu novo local de trabalho está praticamente pronto. Um centro terapêutico.

Saturday, January 20, 2007

Uma questão de carreira...

Toda a minha vida, praticamente, quis seguir uma carreira profissinal em Matemática. No entanto o que queria fazer nessa área foi mudando ao longo dos tempos. No início queria ser professora, tal como a minha mãe, avó e tia (o gosto pela Matemática corre na linhagem feminina da família!). Mais por casmurrice que por outra coisa qualquer, defendi com unhas e dentes essa minha "decisão" durante muito tempo, mesmo tendo começado a descobrir que não tinha a mínima vocação para o ensino. Durante o secundário novas perspectivas me foram apresentadas. O contacto com o mundo da programação e webdesigning fez-me vacilar por dentro, embora por fora continuasse que nem uma pedra. A verdade é que desde pequena sempre me vi a ter várias profissões. Há demasiada coisa que gostava de fazer para ficar presa a uma só a vida toda. No entanto tinha de decidir qual seria a minha área principal de trabalho e a Matemática fazia-me vibrar de uma forma que mais nada conseguia fazer. Descobri que podia seguir investigação e assim a ideia de ir para Matemática Pura começou a tomar forma...


Entrei na faculdade. Curso de Matemática na FCUP. A complexidade da matéria a que fui exposta fez-me perceber que de facto ADORO Matemática, muito mais do que tinha tido noção até então. O meu segundo ano não correu como estava à espera. Tal como é natural, nem tudo é um mar de rosas, nem mesmo quando estamos no curso que pensamos ser o ideal para nós. Tive cadeiras em áreas que não são, de todo, do meu agrado. As notas baixaram drasticamente bem como a motivação. O meu problema é simples: quando gosto do que estou a ver, aprendo com relativa facilidade e nem preciso de estudar muito para ter bons resultados. Mas quando não gosto... Não há nada nem ninguém que me faça conseguir fazer um esforço para estudar a sério, de maneira que a coisa acaba por correr mal. Defeito meu? Algures num tempo passado pensei que sim. Agora penso mais nisso como sendo uma particularidade minha com a qual tenho de saber lidar e, quem sabe, conseguir tirar partido. No meu terceiro ano escolhi o ramo Científico, mais conhecido por ramo de Pura. As cadeiras que tive, já muito mais do meu agrado, fizeram-me retomar o gosto pelo meu curso, com algum incremento até. No entanto outras dúvidas me começavam a assaltar...


Numa altura em que tinha de começar a pensar seriamente no meu futuro profissional tentei, para meu bem, fazer algo que já não me dava ao luxo de fazer havia muito tempo: esvaziar-me de preconceitos, remexer nos recantos do meu coração e tentar perceber se o caminho da investigação era mesmo o melhor para mim. Desde o início do curso sempre me recusei (pelo menos exteriormente) a ir para o estrangeiro estudar, fazer o doutoramento. De facto, sem isso, as perspectivas de emprego em investigação aqui em Portugal não são, de todo, as mais animadoras. O mercado, por assim dizer, começa a estar seriamente lotado, mesmo para os cientistas, que acabam por se "pisgar" para fora. Mas as dúvidas que começavam a surgir na minha mente eram muito mais profundas e simples. Olhando agora para trás vejo que sempre duvidei da minha aptidão e gosto pela vida de investigador. Sempre me pareceu um futuro incerto, cheio de desgostos e dissabores, cabeçadas na parede, prazos para cumprir e trabalhos atrasados... Mas o mais importante: ao tentar ver-me na posição de investigadora em Matemática, a ter o meu gabinete isolado, dar aulas numa faculdade, trabalhar exaustivamente no restante tempo, dei por mim a pensar no quão infeliz iria ser com uma ocupação desse género. Comecei então a ter certezas: esse não poderia ser o meu caminho, ou não viveria em plenitude. Existem várias formas de trabalhar em Matemática, mas as perspectivas que existem aqui em Portugal, e mesmo no estrangeiro, deixaram de me fascinar (ou melhor, descobri que nunca me fascinaram realmente, eu apenas me tentei convercer que sim, ao longo da minha vida, e com isso acabei por convencer os que me rodeiam, obviamente). O que fazer então?


Sem que a ideia me tivesse surgido de imediato, a resposta a essa questão já estava cravada no meu coração havia muito tempo...

O Início

Já se passaram 20 dias desde o início de 2007, mas para fazer aquilo a que me proponho aqui e a partir de agora fazer não é totalmente necessário que estejamos no dia 1 de Janeiro. Um dia qualquer é perfeito para "O Início". Mas afinal o que pretendo eu fazer? Muito fácil de dizer: tornar os próximos 365 dias, a começar agora, nos melhores da minha vida desde que me lembro de "ser" . Com isto não quero dizer que todos os próximos 365 dias terão de ser perfeitos, bons, sem contratempos, tristezas ou desilusões. Não. Apenas quero que, daqui a um ano, possa olhar para traz e fazer um balanço muito positivo das 3 centenas e meia de dias que se passaram entretanto. Posto isto ficam algumas perguntas no ar....


Como consegui-lo?

Para esta pergunta escolho dar uma resposta mais "contínua" no tempo, relatanto pequenos passos que irei dando à medida que o tempo passa e que de alguma forma me permitam subir mais um degrau... Penso ser uma boa proposta, esta. Tentarei dentro dos possíveis pô-la em prática...


Porquê tentar fazê-lo?

É possível, creio, tirar sempre alguma lição de cada momento, cada situação, cada beco, curva e contracurva com que nos deparamos ao longo da vida. No entanto há alturas em que os abismos que nos rodeiam os pés são tão escuros e "sem fim" que nos deixamos esquecer da existência de tais lições e nos perdemos nas profundezas do nosso desespero, mágoa, solidão e auto-comiseração. Ao caírmos nessas teias estamos a estagnar a nossa vida à medida que o tempo passa, a deixar-nos apanhar por pequenas armadilhas que, embora relativamente frágeis, se tornam cada vez mais difíceis de transpor à medida que nos vamos enrolando mais e mais, até que as forças se perdem e apenas a inércia e o vazio restam... Nessa realidade criada é fácil perder-se o rumo, a linha condutora, o nosso Centro. Sem isto não é possível encontrar o nosso equilíbrio interior e tornar, consequentemente, tudo o que nos rodeia ordenado e harmonioso. Sem equilíbrio não há Paz. Sem Paz não há Felicidade. E afinal o que é mais importante na vida? Estar Feliz ou em desequilíbrio, queda, defenhamento, na escuridão? Porquê então trabalhar para ter "O Melhor Ano da Minha Vida"? Simples. Para poder aprender, crescer, evoluir, sentir-me segura e equilibrada por pior que a vida possa parecer num dado momento. Encontrar a Paz em tudo o que sou e me rodeia compreendendo-me, aceitando-me, maravilhando-me com tudo o que é belo e fazendo belo tudo o que vejo. Ser e Estar Feliz.


E assim começa mais uma etapa da minha Vida.