Muito antes do Homem inventar (ou descobrir) a roda já as "donas de casa" das cavernas necessitavam de uma despensa onde armazenar utensílios práticos e comida para o caso de dar a tão famosa Dor_No_Cu* aos machos da casa e estes não poderem caçar durante uns tempos. (*Dor_No_Cu: mais vulgarmente conhecida como Uma_Dor_No_Cu, é a justificação mais globalmente aceite para que uma mulher [ou, para não sermos machistas que afinal de contas sou mulher, o homem, caso seja este a "governar" os dinheiros da casa] ponha de lado uma parte considerável dos rendimentos mensais do agregado familiar em que ninguém supostamente pode tocar. Este "pé de meia" acaba, normalmente, por ser gasto em algo que nada tem a ver com dor, ou com cu, ou com dores no cu.)
Mas deixemo-nos de divagações. Onde ia eu? Ah, pois, a despensa. Que mania essa a de termos de ter tudo organizadinho e empacotadinho, no seu devido lugar. Bem, a mente humana é mesmo assim, e a mania do empacotamento e arrumação, felizmente, tem graus, como boa mania que é. De facto, há de tudo. Há aqueles que não podem ter um palito fora de uma caixa, há os assim-assim, e há os que têm uma única saca plástica no frigorífico, mais legumes, e fruta, e carne, e ovos, e leite, e iogurtes, e abre-se o frigorífico e só se vê uma grande saca quase a arrebentar... bem, manias não se discutem, nem a falta excessiva delas. Mas esta mania do empacotamento tem-se vindo a intensificar nos tempos modernos e neste momento é já tão abrangente e complexa que os especialistas tiveram necessidade de ramificar a coisa. Uma dessas ramificações, e, no meu ponto de vista, a mais perigosa, é aquela a que eu chamo a Mania_do_Encaixotamento. Pois bem, sem que nos déssemos conta, foi criada uma epidemia terrível que tem vindo a invadir as nossas casas e já se tornou numa das mais dissimuladas e persistentes pragas do século XXI: A_Caixa. Quem pode dizer que não tem algures, por mais pequeno que seja, um exemplar d'A_Caixa lá nos armários da cozinha? Mas atenção, não há problema em termos alguns exemplares! De facto eles até que fazem jeito, fica tudo muito mais arrumado e organizado e consegue-se poupar imenso espaço quando a sua utilização é a correcta. O problema é que A_Caixa parece ter vida própria e um sistema reprodutor pior que o dos coelhos. É uma espécie de "Gremling de polímero". São muito jeitosas, muito bonitas, encaixam umas nas outras, mas mais cedo ou mais tarde quebramos alguma das regras e elas tornam-se verdadeiros monstrinhos que invadem os nossos armários e frigoríficos e se multiplicam a velocidade exponencial, para já não falar que parecem crescer de tamanho e a propriedade de encaixarem umas nas outras desaparece como que por magia, bem como o encaixe das respectivas tampas de fecho. Vou então agora descrever um cenário típico do ciclo de vida de um exemplar d'A_Caixa, e depois verão se concordam ou não comigo.
A família X tem um futuro pai e uma futura mãe, um cachorro e um periquito raquítico. Decidem comprar uma casa para iniciar a sua vida familiar com o novo elemento que aí há-de vir. Compram a casa, compram mobília e equipam a cozinha. Vamos então ver a cozinha em pormenor pois é este o ecossistema d'A_Caixa. Escolhem electrodomésticos, louça, trem de cozinha e, como é natural, um conjunto ou dois de exemplares d'A_Caixa, em vários tamanhos e cores, com várias funcionalidades, mas padronizadas de forma a tornar a arrumação mais eficaz, encaixando-se umas em cima das outras e coisas do género. No início tudo é bom. A família X vai, pela primeira vez desde que moram na sua nova casa, às compras. Enchem a despensa e frigorífico e, como também é natural, utilizam as suas novas aquisições para arrumação. Ficam contentes, gastaram muitos exemplares d'A_Caixa a arrumar mas ainda lhes sobraram alguns para o caso de ser necessário. Significa que compraram o número ideal de exemplares. Dão, então, uma festa e convidam uns amigos, para comemorar a compra da casa e o início da sua vida familiar. Como são pessoas modernas, sugerem um sistema de multas para a festa, em que cada convidado trás determinado item necessário, maioritariamente comestíveis. É então que A_Caixa entra em acção. TODA a gente trás o que lhe coube a si trazer dentro de um exemplar d'A_Caixa, mas não é num exemplar qualquer... não, é num exemplar que já se encontra numa fase do ciclo de vida d'A_Caixa bem diferente da fase em que se encontram os exemplares tão fresquinhos adquiridos recentemente pela família X. Não vou agora descrever a fase da sua vida em que esse exemplar se encontra pois estaria a revelar uma parte posterior desta história e estragaria o enredo, de maneira que opto antes por omitir tal informação e apenas dizer que quem trouxe um desses exemplares d'A_Caixa está a ter o comportamento esperado tendo em conta a fase da vida em que esse exemplar se encontra. Continuemos então. A festa. Muita animação, muita comida e bebida, muita música e... muitos exemplares d'A_Caixa espalhados pela cozinha. Final da festa. Começam a sair os convidados, um a um, e nem um deles fez tenção de mencionar o facto de o seu exemplar se encontrar na cozinha dos amigos, vazio, à espera de ser levado para casa. Em vez disso opta pelo silêncio, esperando que os anfitriões não notem que este silêncio é dissimulado, que tem muito mais que se lhe diga. E os donos da casa, como seres inexperientes que são, nada dizem, nem se lembram! Ou então até se lembram e, ao fechar a porta dizem inocentemente: "Amanhã entrego-te A_Caixa, vou lavá-la e assim vai direitinha e limpa, ok? É que aquilo ali dentro está uma confusão...". Esta é a pior coisa que um convidado que está prestes a deixar um dos seus exemplares em casa dos amigos pode ouvir, pois até aí tinha mantida viva a vaga esperança de que este exemplar nunca mais voltasse a fazer parte do seu próprio ciclo de exemplares de A_Caixa.
Passados uns tempos o casal começa a fazer asneiras. Como não conhecem as rígidas regras de "Como bem manusear A_Caixa, mantendo-lhe as rédeas curtas" (devia haver mais divulgação nesta área, mas não convém pois não? Quer dizer, a meia dúzia de estudantes que acabam a licenciatura em Engenharia do Polímero por ano também merecem o seu lugar ao sol... não vamos agora ser mauzinhos) acabam por desgraçar a sua cozinha e, consequentemente, a harmonia na casa e ambiente familiar. A_Caixa começa, silenciosamente, a estender os seus tentáculos e, em última instância, surgem discussões no seio familiar provocadas por esta maldita epidemia.
O filho, já com alguma idade, certo dia abre a porta do armário à procura d'A_Caixa das bolachas, mas esta, oh, está vazia! Vai a chorar para a mãe. A mãe enche-a novamente, consola o filho e pergunta a si própria porque não esteve mais atenta e não reparou que A_Caixa estava já a ficar vazia. Entretanto chega o pai. Abre o frigorífico e tira A_Caixa do fiambre e a do queijo para fazer uma sande (recuso-me a escrever "sandes"), como é habitual, mas descobre que esta última está vazia. Fúria!
H: "Ainda no fim-de-semana comprei queijo e já não há? Eu não como assim tanto! Devemos ter ratos em casa, não?"
M: "Ora vê bem naquela outr'A_Caixa, a azul, se não tens lá queijo..."
H: "Raisparta, mulher, que mania a tua de mudar tudo de sítio! Tinhas de tirar o queijo d'A_Caixa dele? A_Caixa fez-te algum mal?"
M: "Ouve lá meu anormal, eu não mudei nada de sítio. Compraste muito queijo anteontem e eu tive de o repartir, foi o que foi! Se pensasses um pouco perceberias isso antes de despejares asneiradas cá para fora. E já agora, eu não como queijo, o miúdo também não, e como, que eu saiba, não há ratos cá em casa, A_Caixa do queijo está VAZIA NO FRIGORÍFICO por tua causa!"
Este é um exemplo típico de discussão provocada pel'A_Caixa, mas muitos outros existem.
Começam então os problemas de encaixe. Os exemplares d'A_Caixa vão sendo usados, e lavados, e usados, e lavados, e a certa altura começam a entrar na fase da sua vida a que eu dou o nome de Desfiguração. As bordas deixam de ser circunferências, mas também não se transformam em elipses, ficam algures entre a circunferência e a roda dentada. As respectivas tampas também elas próprias chegam à sua fase de Desfiguração. No entanto, embora façam parte d'A_Caixa como um todo, são partes diferentes e, consequentemente, sofrem de forma diferente ao entrar na Desfiguração. Deixam, também elas, de serem circulares e a sua forma situa-se entre o círculo e a roda dentada. O problema é que, normalmente, a nova forma da tampa não é NADA compatível com a nova forma da sua cara metade, de maneira que ficam condenadas à separação, quase sempre definitiva, embora em raros casos se possa dar uma "mãozinha" e fazer a coisa funcionar outra vez, à bruta.
Entretanto já outro problema se começou a tornar visível: a Proliferação. Sem que se apercebessem conscientemente das consequências disso, ao longo dos tempos (não necessariamente anos, atenção, às vezes A_Caixa actua de forma muito rápida!) a família X foi adquirindo novos conjuntos de exemplares de A_Caixa, desta vez já não se preocupando tanto com a uniformização, até porque estão sempre a aparecer novos e melhores modelos no mercado, raisparta que os gajos não param de inventar coisas, mas sem NUNCA deitar um exemplar dos antigos ao lixo. De facto, alguns dos exemplares d'A_Caixa que andam lá por casa nem foram eles que compraram. Foram, antes, lá deixados por amigos ou familiares (como no caso da festinha inicial) de forma propositada, quase certamente, e por lá ficaram. Não que os donos da casa fossem mitras e se quisessem apoderar dos exemplares d'A_Caixa dos seus convidados, nada disso! Apenas acontecia... e eles não percebiam bem porquê. Ao início ainda falavam sobre o assunto, mas entretanto foram deixando passar e os exemplares rapidamente se adaptaram ao novo ecossistema. E de repente há exemplares d'A_Caixa por todo o lado! De todos os tamanhos e feitios, cores e formas, com utilidade aparente ou com aparente desproporcionalidade de tamanho que encontrar utilidade para ela se torna uma tarefa hercúlea. É então que a família X começa a tentar, repito, tentar, fazer a desparasitação, recorrendo a medidas drásticas já padronizadas e mais que testadas.
Medida Drástica Número Um:
Acabaram-se as festas em que os convidados POSSAM trazer seja o que for!
Casal: "Meus amigos, afinal de contas, somos nós que vos estamos a convidar, não precisam de trazer nada..."
Amigos: "Oh, não digam disparates! Deixem-se de coisas, somos amigos ou não? Levamos sim senhora, nem que sejam uns aperitivos, uns rissóis, uma bola de carne, ou um bolo para sobremesa."
[Reparem na subtileza deles. À medida que vão saltando de alimento para alimento que possivelmente podem levar, o tamanho d'A_Caixa que precisam para transportar tal comida vai aumentando...]
Casal: "Não, sério, não vale a pena."
Amigos: "Nós insistimos!"
[Começa a formar-se um mau ambiente... E o casal manda bocas, sempre com um sorriso, para não parecer que a questão os afecta tanto.]
Casal: "Quem manda aqui afinal? Não trazem e acabou-se a discussão!"
Amigos: "Olha-me estes! Já deram antes festas em que não se puseram com tantas tretas. Que se passa agora?"
[Em desespero de causa.]
Casal: "Pronto, tragam uma garrafa de vinho, ou um refrigerante, vá."
Amigos: "Olha, que coincidência, temos lá em casa umas laranjas e uns limões que trouxemos lá da quinta, mesmo fresquinhos, que fazem um suminho de laranja e limonada fantásticos, daqui! Então amanhã levamos um'A_Caixa delas e esprememo-las na hora, pode ser?"
[Fim da picada.]
Tentativa de aplicação da Medida Drástica Número Um - falhada.
Medida Drástica Número Dois:
Fazer aos outros aquilo que não gostamos que nos façam a nós. Neste caso específico significa levar exemplares d'A_Caixa para casa de algum conhecido, amigo ou familiar, e de preferência conseguir com que os donos da casa não se lembrem de a devolver na altura e assim a probabilidade de ela retornar à origem será menor. Convém, no entanto, fazer isto com pessoas que ainda sejam algo leigas nas consequências da má interacção com A_Caixa pois, caso contrário, o exemplar "esquecido" voltará quase certamente ao seu ecossistema inicial. Como? Ora, a mente humana consegue ser tão criativa! De repente as chaves da nossa casa desaparecem sem sabermos porquê. Dá-mos com elas num sítio onde temos a certeza de não as termos deixado horas mais tarde e, chegados a casa, abrimos um armário e, milagre!, o exemplar não desejado está lá descansado da vida! E outro ponto importante. Que exemplares é que temos de tentar "despachar" para outra casa que não a nossa? Aqueles que estiverem já numa fase MUITO avançada de Desfiguração, ou aqueles que alguém lá deixou em casa pois tomou, ela própria, a Medida Drástica Número Dois, mas que tem uma tamanho imenso e não cabe em lado nenhum, para além de ser extremamente feio. Em desespero de causa, quando a Proliferação já ultrapassou o ponto crítico, um exemplar qualquer serve, desde que a cozinha fique um pouco mais vazia no final do dia. Aliás, nesses casos, despachar um ou dois exemplares dos "bons" até pode ser uma boa ideia, afinal de contas eles estão escondidos dos olhares e estão, lá nos armários, e assim a probabilidade de o quererem "adoptar" talvez aumente.
No entanto, embora seja possível de facto erradicar alguns exemplares indesejados d'A_Caixa lá da cozinha, tendo em conta a quantidade de vezes que somos confrontados com tentativas de aplicação da Medida Drástica Número Dois por parte das pessoas que nos rodeiam, a quantidade efectiva de exemplares d'A_Caixa na nossa cozinha continua a aumentar, e em raras ocasiões estagna, mas nunca por muito tempo e sem nunca diminuir.
Tentativa de aplicação da Medida Drástica Número Dois - falhada.
Medida Drástica Número Três:
Deitar fora alguns exemplares d'A_Caixa que sejam desesperadamente indesejados. Mas aqui entra um outro factor: a quase incapacidade do ser humano para se livrar de objectos que possam, eventualmente, ter utilidade, um dia, talvez num dia longínquo, mas um dia, à qual eu chamo de Síndrome da Incapacidade_Do_Ser_Humano_De_Se_Livrar_De_Coisas_Que_Não_Têm_Utilidade_E_Por_Isso_Se_Convence_Que_Hão-de_Ter. É então que dizemos, perante a perspectiva de por em prática a Medida Drástica Número Três: "Ora, para isso dou!". E aí comete-se o erro de reencaminhar a Medida Drástica Número Três para a Medida Drástica Número Dois, mesmo sabendo que esta fracassa na sua essência, numa tentativa de nos iludirmos a nós próprios que tanto conseguimos não desperdiçar coisas que poderiam dar jeito a alguém (e logo a nós também, porque não?... ai, já estou a sofrer do Síndrome da Incapacidade_Do_Ser_Humano_De_Se_Livrar_De_Coisas_Que_Não_Têm_Utilidade_E_Por_Isso_Se_Convence_Que_Hão-de_Ter) e ao mesmo tempo resolvermos o problema da nossa cozinha, que começa a definhar de dia para dia. E isso ao que leva?
Tentativa de aplicação da Medida Drástica Número Três - falhada.
Bem, e a nossa história da família X para por aqui, pois a partir deste momento o ciclo de vida d'A_Caixa fica estacionado. Chegando a este ponto, atingiu-se o ponto sem retorno. Por isso cuidado! E que este post sirva de apelo e aviso para todas essas pessoas que pensam iniciar uma vida caseira. Estejam atentos! Tentem impor regras e rédeas curtas aos vossos exemplares d'A_Caixa antes que eles se imponham perante vós e controlem todos os recantos da vossa cozinha e comecem a interferir na vossa vida!
Um conselho de alguém que há bem pouco tempo tomou consciência de que os seus exemplares d'A_Caixa estão algo mal comportados, mas que, felizmente, ainda não entraram na fase sem retorno.
Mas deixemo-nos de divagações. Onde ia eu? Ah, pois, a despensa. Que mania essa a de termos de ter tudo organizadinho e empacotadinho, no seu devido lugar. Bem, a mente humana é mesmo assim, e a mania do empacotamento e arrumação, felizmente, tem graus, como boa mania que é. De facto, há de tudo. Há aqueles que não podem ter um palito fora de uma caixa, há os assim-assim, e há os que têm uma única saca plástica no frigorífico, mais legumes, e fruta, e carne, e ovos, e leite, e iogurtes, e abre-se o frigorífico e só se vê uma grande saca quase a arrebentar... bem, manias não se discutem, nem a falta excessiva delas. Mas esta mania do empacotamento tem-se vindo a intensificar nos tempos modernos e neste momento é já tão abrangente e complexa que os especialistas tiveram necessidade de ramificar a coisa. Uma dessas ramificações, e, no meu ponto de vista, a mais perigosa, é aquela a que eu chamo a Mania_do_Encaixotamento. Pois bem, sem que nos déssemos conta, foi criada uma epidemia terrível que tem vindo a invadir as nossas casas e já se tornou numa das mais dissimuladas e persistentes pragas do século XXI: A_Caixa. Quem pode dizer que não tem algures, por mais pequeno que seja, um exemplar d'A_Caixa lá nos armários da cozinha? Mas atenção, não há problema em termos alguns exemplares! De facto eles até que fazem jeito, fica tudo muito mais arrumado e organizado e consegue-se poupar imenso espaço quando a sua utilização é a correcta. O problema é que A_Caixa parece ter vida própria e um sistema reprodutor pior que o dos coelhos. É uma espécie de "Gremling de polímero". São muito jeitosas, muito bonitas, encaixam umas nas outras, mas mais cedo ou mais tarde quebramos alguma das regras e elas tornam-se verdadeiros monstrinhos que invadem os nossos armários e frigoríficos e se multiplicam a velocidade exponencial, para já não falar que parecem crescer de tamanho e a propriedade de encaixarem umas nas outras desaparece como que por magia, bem como o encaixe das respectivas tampas de fecho. Vou então agora descrever um cenário típico do ciclo de vida de um exemplar d'A_Caixa, e depois verão se concordam ou não comigo.
A família X tem um futuro pai e uma futura mãe, um cachorro e um periquito raquítico. Decidem comprar uma casa para iniciar a sua vida familiar com o novo elemento que aí há-de vir. Compram a casa, compram mobília e equipam a cozinha. Vamos então ver a cozinha em pormenor pois é este o ecossistema d'A_Caixa. Escolhem electrodomésticos, louça, trem de cozinha e, como é natural, um conjunto ou dois de exemplares d'A_Caixa, em vários tamanhos e cores, com várias funcionalidades, mas padronizadas de forma a tornar a arrumação mais eficaz, encaixando-se umas em cima das outras e coisas do género. No início tudo é bom. A família X vai, pela primeira vez desde que moram na sua nova casa, às compras. Enchem a despensa e frigorífico e, como também é natural, utilizam as suas novas aquisições para arrumação. Ficam contentes, gastaram muitos exemplares d'A_Caixa a arrumar mas ainda lhes sobraram alguns para o caso de ser necessário. Significa que compraram o número ideal de exemplares. Dão, então, uma festa e convidam uns amigos, para comemorar a compra da casa e o início da sua vida familiar. Como são pessoas modernas, sugerem um sistema de multas para a festa, em que cada convidado trás determinado item necessário, maioritariamente comestíveis. É então que A_Caixa entra em acção. TODA a gente trás o que lhe coube a si trazer dentro de um exemplar d'A_Caixa, mas não é num exemplar qualquer... não, é num exemplar que já se encontra numa fase do ciclo de vida d'A_Caixa bem diferente da fase em que se encontram os exemplares tão fresquinhos adquiridos recentemente pela família X. Não vou agora descrever a fase da sua vida em que esse exemplar se encontra pois estaria a revelar uma parte posterior desta história e estragaria o enredo, de maneira que opto antes por omitir tal informação e apenas dizer que quem trouxe um desses exemplares d'A_Caixa está a ter o comportamento esperado tendo em conta a fase da vida em que esse exemplar se encontra. Continuemos então. A festa. Muita animação, muita comida e bebida, muita música e... muitos exemplares d'A_Caixa espalhados pela cozinha. Final da festa. Começam a sair os convidados, um a um, e nem um deles fez tenção de mencionar o facto de o seu exemplar se encontrar na cozinha dos amigos, vazio, à espera de ser levado para casa. Em vez disso opta pelo silêncio, esperando que os anfitriões não notem que este silêncio é dissimulado, que tem muito mais que se lhe diga. E os donos da casa, como seres inexperientes que são, nada dizem, nem se lembram! Ou então até se lembram e, ao fechar a porta dizem inocentemente: "Amanhã entrego-te A_Caixa, vou lavá-la e assim vai direitinha e limpa, ok? É que aquilo ali dentro está uma confusão...". Esta é a pior coisa que um convidado que está prestes a deixar um dos seus exemplares em casa dos amigos pode ouvir, pois até aí tinha mantida viva a vaga esperança de que este exemplar nunca mais voltasse a fazer parte do seu próprio ciclo de exemplares de A_Caixa.
Passados uns tempos o casal começa a fazer asneiras. Como não conhecem as rígidas regras de "Como bem manusear A_Caixa, mantendo-lhe as rédeas curtas" (devia haver mais divulgação nesta área, mas não convém pois não? Quer dizer, a meia dúzia de estudantes que acabam a licenciatura em Engenharia do Polímero por ano também merecem o seu lugar ao sol... não vamos agora ser mauzinhos) acabam por desgraçar a sua cozinha e, consequentemente, a harmonia na casa e ambiente familiar. A_Caixa começa, silenciosamente, a estender os seus tentáculos e, em última instância, surgem discussões no seio familiar provocadas por esta maldita epidemia.
O filho, já com alguma idade, certo dia abre a porta do armário à procura d'A_Caixa das bolachas, mas esta, oh, está vazia! Vai a chorar para a mãe. A mãe enche-a novamente, consola o filho e pergunta a si própria porque não esteve mais atenta e não reparou que A_Caixa estava já a ficar vazia. Entretanto chega o pai. Abre o frigorífico e tira A_Caixa do fiambre e a do queijo para fazer uma sande (recuso-me a escrever "sandes"), como é habitual, mas descobre que esta última está vazia. Fúria!
H: "Ainda no fim-de-semana comprei queijo e já não há? Eu não como assim tanto! Devemos ter ratos em casa, não?"
M: "Ora vê bem naquela outr'A_Caixa, a azul, se não tens lá queijo..."
H: "Raisparta, mulher, que mania a tua de mudar tudo de sítio! Tinhas de tirar o queijo d'A_Caixa dele? A_Caixa fez-te algum mal?"
M: "Ouve lá meu anormal, eu não mudei nada de sítio. Compraste muito queijo anteontem e eu tive de o repartir, foi o que foi! Se pensasses um pouco perceberias isso antes de despejares asneiradas cá para fora. E já agora, eu não como queijo, o miúdo também não, e como, que eu saiba, não há ratos cá em casa, A_Caixa do queijo está VAZIA NO FRIGORÍFICO por tua causa!"
Este é um exemplo típico de discussão provocada pel'A_Caixa, mas muitos outros existem.
Começam então os problemas de encaixe. Os exemplares d'A_Caixa vão sendo usados, e lavados, e usados, e lavados, e a certa altura começam a entrar na fase da sua vida a que eu dou o nome de Desfiguração. As bordas deixam de ser circunferências, mas também não se transformam em elipses, ficam algures entre a circunferência e a roda dentada. As respectivas tampas também elas próprias chegam à sua fase de Desfiguração. No entanto, embora façam parte d'A_Caixa como um todo, são partes diferentes e, consequentemente, sofrem de forma diferente ao entrar na Desfiguração. Deixam, também elas, de serem circulares e a sua forma situa-se entre o círculo e a roda dentada. O problema é que, normalmente, a nova forma da tampa não é NADA compatível com a nova forma da sua cara metade, de maneira que ficam condenadas à separação, quase sempre definitiva, embora em raros casos se possa dar uma "mãozinha" e fazer a coisa funcionar outra vez, à bruta.
Entretanto já outro problema se começou a tornar visível: a Proliferação. Sem que se apercebessem conscientemente das consequências disso, ao longo dos tempos (não necessariamente anos, atenção, às vezes A_Caixa actua de forma muito rápida!) a família X foi adquirindo novos conjuntos de exemplares de A_Caixa, desta vez já não se preocupando tanto com a uniformização, até porque estão sempre a aparecer novos e melhores modelos no mercado, raisparta que os gajos não param de inventar coisas, mas sem NUNCA deitar um exemplar dos antigos ao lixo. De facto, alguns dos exemplares d'A_Caixa que andam lá por casa nem foram eles que compraram. Foram, antes, lá deixados por amigos ou familiares (como no caso da festinha inicial) de forma propositada, quase certamente, e por lá ficaram. Não que os donos da casa fossem mitras e se quisessem apoderar dos exemplares d'A_Caixa dos seus convidados, nada disso! Apenas acontecia... e eles não percebiam bem porquê. Ao início ainda falavam sobre o assunto, mas entretanto foram deixando passar e os exemplares rapidamente se adaptaram ao novo ecossistema. E de repente há exemplares d'A_Caixa por todo o lado! De todos os tamanhos e feitios, cores e formas, com utilidade aparente ou com aparente desproporcionalidade de tamanho que encontrar utilidade para ela se torna uma tarefa hercúlea. É então que a família X começa a tentar, repito, tentar, fazer a desparasitação, recorrendo a medidas drásticas já padronizadas e mais que testadas.
Medida Drástica Número Um:
Acabaram-se as festas em que os convidados POSSAM trazer seja o que for!
Casal: "Meus amigos, afinal de contas, somos nós que vos estamos a convidar, não precisam de trazer nada..."
Amigos: "Oh, não digam disparates! Deixem-se de coisas, somos amigos ou não? Levamos sim senhora, nem que sejam uns aperitivos, uns rissóis, uma bola de carne, ou um bolo para sobremesa."
[Reparem na subtileza deles. À medida que vão saltando de alimento para alimento que possivelmente podem levar, o tamanho d'A_Caixa que precisam para transportar tal comida vai aumentando...]
Casal: "Não, sério, não vale a pena."
Amigos: "Nós insistimos!"
[Começa a formar-se um mau ambiente... E o casal manda bocas, sempre com um sorriso, para não parecer que a questão os afecta tanto.]
Casal: "Quem manda aqui afinal? Não trazem e acabou-se a discussão!"
Amigos: "Olha-me estes! Já deram antes festas em que não se puseram com tantas tretas. Que se passa agora?"
[Em desespero de causa.]
Casal: "Pronto, tragam uma garrafa de vinho, ou um refrigerante, vá."
Amigos: "Olha, que coincidência, temos lá em casa umas laranjas e uns limões que trouxemos lá da quinta, mesmo fresquinhos, que fazem um suminho de laranja e limonada fantásticos, daqui! Então amanhã levamos um'A_Caixa delas e esprememo-las na hora, pode ser?"
[Fim da picada.]
Tentativa de aplicação da Medida Drástica Número Um - falhada.
Medida Drástica Número Dois:
Fazer aos outros aquilo que não gostamos que nos façam a nós. Neste caso específico significa levar exemplares d'A_Caixa para casa de algum conhecido, amigo ou familiar, e de preferência conseguir com que os donos da casa não se lembrem de a devolver na altura e assim a probabilidade de ela retornar à origem será menor. Convém, no entanto, fazer isto com pessoas que ainda sejam algo leigas nas consequências da má interacção com A_Caixa pois, caso contrário, o exemplar "esquecido" voltará quase certamente ao seu ecossistema inicial. Como? Ora, a mente humana consegue ser tão criativa! De repente as chaves da nossa casa desaparecem sem sabermos porquê. Dá-mos com elas num sítio onde temos a certeza de não as termos deixado horas mais tarde e, chegados a casa, abrimos um armário e, milagre!, o exemplar não desejado está lá descansado da vida! E outro ponto importante. Que exemplares é que temos de tentar "despachar" para outra casa que não a nossa? Aqueles que estiverem já numa fase MUITO avançada de Desfiguração, ou aqueles que alguém lá deixou em casa pois tomou, ela própria, a Medida Drástica Número Dois, mas que tem uma tamanho imenso e não cabe em lado nenhum, para além de ser extremamente feio. Em desespero de causa, quando a Proliferação já ultrapassou o ponto crítico, um exemplar qualquer serve, desde que a cozinha fique um pouco mais vazia no final do dia. Aliás, nesses casos, despachar um ou dois exemplares dos "bons" até pode ser uma boa ideia, afinal de contas eles estão escondidos dos olhares e estão, lá nos armários, e assim a probabilidade de o quererem "adoptar" talvez aumente.
No entanto, embora seja possível de facto erradicar alguns exemplares indesejados d'A_Caixa lá da cozinha, tendo em conta a quantidade de vezes que somos confrontados com tentativas de aplicação da Medida Drástica Número Dois por parte das pessoas que nos rodeiam, a quantidade efectiva de exemplares d'A_Caixa na nossa cozinha continua a aumentar, e em raras ocasiões estagna, mas nunca por muito tempo e sem nunca diminuir.
Tentativa de aplicação da Medida Drástica Número Dois - falhada.
Medida Drástica Número Três:
Deitar fora alguns exemplares d'A_Caixa que sejam desesperadamente indesejados. Mas aqui entra um outro factor: a quase incapacidade do ser humano para se livrar de objectos que possam, eventualmente, ter utilidade, um dia, talvez num dia longínquo, mas um dia, à qual eu chamo de Síndrome da Incapacidade_Do_Ser_Humano_De_Se_Livrar_De_Coisas_Que_Não_Têm_Utilidade_E_Por_Isso_Se_Convence_Que_Hão-de_Ter. É então que dizemos, perante a perspectiva de por em prática a Medida Drástica Número Três: "Ora, para isso dou!". E aí comete-se o erro de reencaminhar a Medida Drástica Número Três para a Medida Drástica Número Dois, mesmo sabendo que esta fracassa na sua essência, numa tentativa de nos iludirmos a nós próprios que tanto conseguimos não desperdiçar coisas que poderiam dar jeito a alguém (e logo a nós também, porque não?... ai, já estou a sofrer do Síndrome da Incapacidade_Do_Ser_Humano_De_Se_Livrar_De_Coisas_Que_Não_Têm_Utilidade_E_Por_Isso_Se_Convence_Que_Hão-de_Ter) e ao mesmo tempo resolvermos o problema da nossa cozinha, que começa a definhar de dia para dia. E isso ao que leva?
Tentativa de aplicação da Medida Drástica Número Três - falhada.
Bem, e a nossa história da família X para por aqui, pois a partir deste momento o ciclo de vida d'A_Caixa fica estacionado. Chegando a este ponto, atingiu-se o ponto sem retorno. Por isso cuidado! E que este post sirva de apelo e aviso para todas essas pessoas que pensam iniciar uma vida caseira. Estejam atentos! Tentem impor regras e rédeas curtas aos vossos exemplares d'A_Caixa antes que eles se imponham perante vós e controlem todos os recantos da vossa cozinha e comecem a interferir na vossa vida!
Um conselho de alguém que há bem pouco tempo tomou consciência de que os seus exemplares d'A_Caixa estão algo mal comportados, mas que, felizmente, ainda não entraram na fase sem retorno.
